Jogos eletrônicos podem auxiliar no desenvolvimento psicológico de crianças?
Atualmente, convivemos com um complexo sistema de comunicação que evolui
de forma vertiginosa, transgredindo o tempo necessário para sua assimilação.
Do telefone com central ao celular, da televisão ao game portátil somos
envolvidos pelo sedutor convite de interagir apenas com as palavras, nos
distanciando da realidade corporal de uma interação face-a-face. A inovação
tecnológica, como produto da criação humana, tem sua origem na manipulação
prazerosa e despretensiosa do meio, reconhecida no ato de brincar. Por este
motivo, os jogos eletrônicos conquistaram espaço como atividade lúdica e
passaram a substituir jogos manipulativos simples e de interações corporais e
sociais. Este estudo tem como objetivo a análise dos jogos eletrônicos e sua
influência no desenvolvimento psíquico da criança, tomando como foco seu uso
e exposição excessiva.
A criança ao brincar re-edita a vivência de transgressão da realidade, buscando
a satisfação de suas necessidades físicas, psíquicas e emocionais. A função
do jogo é analisada através da psicanálise como expressão de prazer e
desprazer, de transformação da realidade diante das frustrações que esta
impõe. Freud abordou o tema do jogo infantil ao observar um bebê de
um ano e meio brincar diante do afastamento da mãe. Sozinho em seu berço, o
bebê jogava um carretel e tomava-o de volta enquanto verbalizava o
afastamento (fort, que significava fora) e aproximação (da, aqui).Tratava-se
de um jogo de esconde-esconde, cujo caráter simbólico foi conjeturado por
Freud como interativo, de repetição em relação a toda experiência de
separação do objeto amado. O jogo do fort-da, como passou a ser
denominado, constitui o marco de referência teórico para o reconhecimento dos
primeiros jogos infantis como meios de estruturação do desenvolvimento do
psiquismo infantil pela elaboração da renúncia da relação primordial mãe-bebê.
As concepções atuais sobre o jogo e a formação do psiquismo entrelaçam
questões do narcisismo, transitivismo, abandono do objeto amado e
enunciação da fala materna.
Os jogos eletrônicos são caracterizados por uma interação mediada pela
máquina. Os parceiros podem interagir a qualquer distância, o que torna a
convivência corpo-a-corpo uma condição virtual. Não deixando de considerar
os benefícios dos jogos eletrônicos no desenvolvimento das funções cognitivas
na criança, torna-se importante tratar dos demais aspectos do desenvolvimento
envolvidos nesta atividade lúdica. O risco de excessivo envolvimento com jogos
eletrônicos, vem sendo alertado pela mídia: Lan houses viram babás na
madrugada (Zero Hora, 04/06/2005); Vício em internet, nova epidemia na
China(O Globo, 08/01/06). Uma geração de dependentes em internet tem
surgido e sua condição subjetiva tem sido pesquisada para que os meios de
tratamento e prevenção possam ser efetivados. As manifestações dos jovens
sobre esta atividade em competições online são referidas pela sensação de
prazer diante da vivência de vitória e comando que estes jogos proporcionam.
Estudos na área do desenvolvimento infantil apontam que a criança responde
demandas familiares em acordo com as ofertas sociais de seu meio
imediato. O estímulo às atividades em jogos eletrônicos é uma demanda de
nossa cultura, cujo prazer suposto é assumido pelos pais e direcionado à
criança, que retornará, por sua vez, com o envolvimento na atividade, na busca
do prazer almejado.
As relações entre pais e filhos na medida em que
autorizam o excesso de atividades em ambientes virtuais favorecem o
surgimento da dependência: o excesso torna-se norma e o gozo a qualquer
preço, uma necessidade. A ausência do corte favorece a alienação e o
isolamento da criança e do jovem no mundo imaginário dos jogos virtuais,
tornando suas vidas empobrecidas de laços sociais.
Fonte: PUCRS |
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